SOBRE O AUTOR

carr_custom-94a5d27a231e450bf982db5a171890219451a034-s6-c30

Nicholas G. Carr nasceu nos EUA, em 1959. É conhecido mundialmente pelo seu livro “The Shallows“, que chegou a ser um dos finalistas do prêmio Pulitzer na categoria de não-ficção geral em 2011. Ele começou a ganhar proeminência em 2003-4, quando da publicação do artigo “IT doesn’t matter” na Harvard Business Review e o lançamento do livro Does IT Matter? Information Technology and the Corrosion of Competitive Advantage. Nessas produções, ele discute sobre tecnologia da informação.

Em 2008, ele lança o livro “The Big Switch: Rewiring the World, From Edison to Google“. Nessa obra, ele discute sobre as consequências sociais e econômicas da computação em nuvens “The Shallows” foi publicado dois anos depois. Nesse livro, Nicholas Carr discute sobre os efeitos de curto e longo prazo da Internet na forma pela qual nosso cérebro funciona. Ele cita diversas referências históricas e científicas para embasar as suas questões. Destaca que as mudanças na forma de pensar ocorreram também com outras tecnologias, o que, portanto, indica que esses processos são normais. Porém, alguns efeitos causados pela Internet nos deixam em dúvida sobre seus benefícios.

O quarto livro de Nicholas Carr foi “The Glass Cage: Automation and Us” (2014), no qual discute os efeitos da automação em nossa sociedade. Uma visão mais crítica sobre o sonho americano das novas tecnologias veio em seu último livro, “Utopia Is Creepy: and Other Provocations“, lançado em 2016. A obra possui diversos textos de seu blog, “Rough Type”, no qual ele regularmente escreve sobre o utopismo tecnológico, a web 2.0 e os efeitos da Internet.

 

THE SHALLOWS: WHAT THE INTERNET ARE DOING TO OUR BRAINS?

PRÓLOGO – O CÃO DE GUARDA E O LADRÃO

A primeira referência citada no livro é o autor Marshall McLuhan. Ele é o autor do profético livro Os meios de comunicação como extensões do homem (1964). A frase mais marcante dessa obra é: “o meio é a mensagem”. McLuhan queria dizer que os novos meios eletrônicos tanto são alterados como alteram nossa forma de ser e pensar. Não são meros instrumentos. O conteúdo da mídia é alterado pelos novos equipamentos. A forma de pensar é modificada a medida que as tecnologias se modificam.

CAPÍTULO 1 – HAL E EU

O autor começa a falar de sua experiência de modificações na mente. Ele notou que sua capacidade de memorizar e se concentrar na leitura deterioraram-se muito nos últimos anos. E não foi devido ao envelhecimento. Ele destaca que outros estudiosos, amigos seus também, sofreram de sintomas parecidos aos dele. Ele também notou uma “fome” cada vez maior por clicar e acessa mais e mais links. Parece que o cérebro exige cada vez mais velocidade e interação na web.

Ainda assim, seus amigos não sentem vontade de voltar ao estado anterior. Aceitam as perdas, pois as enxergam como efeitos do mundo virtual. Com os blogs e sites, eles podem encontrar e acessar informações rapidamente. Basta pesquisar no Google ou procurar contatos no Facebook, para encontrar algo ou alguém.

A internet se tornou essencial nos mais diversos lugares, desde universidades até hospitais. ” Parece que chegamos, como previu McLuhan, a um ponto importante de nossa história intelectual e cultural, um momento de transição entre dois modos muito diferentes de pensar…  A mente linear, calma, concentrada, sem distrações está sendo substituída por um novo tipo de mente que quer e precisa obter e distribuir informações em curtos rebentos disjuntos e por vezes sobrepostos

Nicholas Carr relata um pouco das etapas tecnológicas pelas quais passou. Ele, que nasceu em janeiro de 1959, vivenciou a era do analógico e a transição para o digital. Também passou pelo desenvolvimento dos computadores. A Apple foi criada em 1977, mesmo ano em que era lançado Star Wars. Nessa época, ele destaca que toda sua pesquisa era feita manualmente na biblioteca e admite: “Apesar de estar cercado por dezenas de milhares de obras, não me lembro de sentir a ansiedade sintomática do que hoje chamamos de “sobrecarga de informação”.

Ele passa a relatar a compra do seu primeiro computador pessoal. Com o tempo, a ferramenta que era utilizada apenas para o trabalho, tornou-se prática em casa também. Quando escrevia, preferia imprimir e fazer correções, antes de digitar novamente. Com o passar do tempo, se acostumou a fazer tudo no computador. Foi uma transição.

CAPÍTULO 3 – FERRAMENTAS PARA A MENTE

A humanidade passou por diversas fases de amadurecimento intelectual, como uma criança. Nos primórdios, os desenhos ou mapas eram em duas dimensões, simplificados, muito literais. Depois, foi se tornando cada vez mais abstrato, com diversos símbolos que precisavam ser decodificados.

“O processo intelectual de transformar experiência em espaço em abstração do espaço é uma revolução no modo de pensar”

A história da cartografia é similar. No princípio, os mapas eram gravados na mente. Quando começaram a ser desenhados, eram muito simples e literais. Não ajudavam tanto. Com o desenvolvimento de ferramentas, como a bússola, os mapas se tornaram mais sofisticados. Haviam símbolos e o desenho era uma representação abstrata de uma realidade física.

Passamos da percepção infantil do mundo, egocêntrica e puramente sensorial, para a análise juvenil da experiência, mais abstrata e objetiva”

Quanto mais o tempo passava, o realismo tornava-se científico tanto na precisão quanto na abstração”. O resultado foi a alteração no modo de pensar e ver o mundo. A mente se adaptou ao formato dos mapas e passou a entender a realidade por meio dos símbolos que existem nele. Esse processo de redução da realidade e analogia é uma consecução do pensamento abstrato de altíssima ordem. 

Outra invenção que alterou a mente foi o relógio. A vida era dominada por um ritmo lento, agrícola, descuidado com o tempo. Nos mosteiros, monges começaram a exigir maior pontualidade. São Bento exigiu que os seus seguidores fizessem 7 orações em momentos específicos do dia. Alguns séculos depois, monges preocupados com a exatidão do tempo, investiram no desenvolvimento da cronometragem.

Vieram, então, os relógios mecânicos. O badalar dos sinos tornou-se um demarcador de intervalos para os moradores do entorno. Isso mudou o ritmo das atividades. Com o desenvolvimento do comércio e da indústria, tornou-se necessário a padronização das medições do tempo. No século XIV, toda cidade já tinha seu relógio de torre.

A tecnologia foi sendo aprimorada e vieram relógios menores, para uso doméstico. Por fim, criou-se os relógios de pulso. A vida agora era controlada pelo tempo em qualquer lugar. O ritmo da sociedade mudara e a forma de pensar também. O relógio fez a humanidade pensar de forma mecanicista e metódico. Também fortaleceu o conceito de que o mundo é como um grande relógio, cujo relojoeiro é Deus, e as regras da natureza já foram fixadas, cabendo a nós compreendê-las.

O autor destaca quatro grandes grupos de invenções. O primeiro abrange aquelas que ampliam a força física, destreza e flexibilidade, como o arado, a agulha e as armas de caça. O segundo grupo envolveria aquelas tecnologias que ampliam o alcance e a sensibilidade dos sentidos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio aumenta os limites da visão.

Um terceiro grupo seria englobado pelas ferramentas que permite-nos mudar a natureza para melhor servir nossas necessidades e desejos, como o açude ou pílula anticoncepcional. E, por fim, o quarto grupo seriam aquelas invenções que ampliam nossos poderes mentais. Em outras palavras, são “tecnologias intelectuais”. Elas nos ajudam a encontrar e classificar informação, formular ideias, realizar cálculos e expandir a capacidade da memória. Ábaco, máquina de escrever, escola, jornal, computador e Internet são exemplos.

“São nossas tecnologias intelectuais que têm o poder maior e mais duradouro sobre o quê e como pensamos”

“Toda tecnologia intelectual incorpora uma ética intelectual, um conjunto de suposições sobre como a mente humana funciona ou deveria funcionar”. E nos acostumamos com a nova forma de pensar a tal ponto que estranhamos a anterior. Elas se tornam referências de inteligência. Porém, nem sempre o inventor se apercebe dos efeitos de longo prazo de suas invenções. 

Os efeitos das novas tecnologias se tornaram alvo de muitas discussões filosóficas. Existe uma tendência “determinista”, que vê a tecnologia como mestre e que é independente. Além disso, as tecnologias alteram drasticamente o curso da história humana. Em contrapartida, existe a visão instrumentalista, que afirma que as ferramentas não nos controlam e que depende apenas de nós os efeitos que elas poderão ter no mundo.

“Se a experiência da sociedade moderna nos mostra alguma coisa”, observa o cientista político Langdon Winner, “é que as tecnologias não são meros auxiliares à atividade humana, mas sim forças poderosas agindo para reformular essa atividade e seu significado.”

Às vezes, nossas ferramentas fazem o que mandamos; outras vezes, nós é que nos adaptarmos às exigências delas”

Mas há uma coisa em que ambos concordam: os avanços tecnológicos muitas vezes marcam momentos decisivos na história  Em grande medida, a civilização assumiu sua forma atual como resultado das tecnologias que as pessoas passaram a usar.

Nicholas Carr entra na questão da neurociência. As pesquisas comprovam a neuroplasticidade da mente, ou seja, a capacidade dos neurônios de serem reorganizados de acordo com as novas circunstâncias e usos externos. Elas são mais fáceis de ser demarcadas e compreendidas, facilitando o estudo do desenvolvimento da inteligência. “Hoje sabemos não só que é provável que o uso de tecnologias intelectuais
tenham (re)modelado o circuito em nossas cabeças, mas que tinha de ser assim…
Também sabemos agora que as mudanças no cérebro estimuladas pelo uso dos mapas poderiam ser utilizadas para outros fins, o que ajuda a explicar como o pensamento abstrato, em geral, pôde ser promovido pela difusão do trabalho dos cartógrafos”. 

As novas tecnologias alteram não apenas nossas rotinas, mas também nossa comunicação. Novas analogias são construídas, pois, afinal, são criadas nossas referências simbólicas. Os mapas e os relógios se tornaram analogias para muitos fenômenos.  Portanto, elas alteraram nossas palavras.

A própria escrita causa alterações na mente. Dependendo do idioma, diferentes áreas do cérebro são ativadas. Textos como os ideogramas exige uma atividade cerebral diferente dos que utilizam o alfabeto romano. Isso explica a evolução da linguagem. Os primeiros idiomas escritos foram desenvolvidos pelos sumérios e pelos egípcios. Eram muito complexos e exigiam uma extensa decodificação, o que limitava seu uso e a quantidade de pessoas que conseguiam entendê-los.

Os gregos desenvolveram o alfabeto logossilábico. Este formato mudou significativamente o modo de pensar. Eles também discutiram bastante o papel da escrita. Nos textos de Platão, Sócrates dizia ser totalmente contrário ao uso da escrita, pois, na visão dele, a mente humana ficaria limitada. Com o tempo, perderíamos todas as lembranças. Platão já não era de acordo com seu mestre e, de fato, graças ao fato dele ter escrito seus textos e não confiado na memória oral que permitiu que o lêssemos atualmente.

O mundo oral de nossos ancestrais distantes pode muito bem ter tido uma profundidade emocional e intuitiva que hoje não mais se aprecia”

Essa tensão era reflexo de uma transição da cultural oral para a escrita. ” Em uma cultura puramente oral, o pensamento é regido pela capacidade da memória humana”. Não é para menos que se fazia amplo uso da poesia, da rima e da música para memorizar conhecimento. A escrita mudou a forma de se usar a mente, pois as demandas eram outras.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s